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Me perguntaram se era muito
complicado conseguir estudar no exterior. Primeiro escrevi um e-mail
respondendo, mas decidi colocar a história aqui também. Fica para futuras
consultas...
Estudo no exterior não é impossivel,
mas é mais complicado. Se você vier pelo caminho natural, depois de um
mestrado no Brasil pode se candidatar a um doutorado no exterior e pedir
bolsas de estudo para a CAPES ou o CNPQ. O único porém dessas bolsas, além
de estarem cada vez mais escassas, é a obrigação de voltar ao Brasil ao
fim dos estudos. Parece que hoje em dia existe uma forma de "devolver" o
dinheiro depois de formado (afinal, tem gente que constroi uma nova vida e
uma nova família nesses 4 anos fora do país), mas eu não conheço os custos
nem as condições.
Para conseguir uma bolsa estrangeira já é bem mais complicado. Eu tive um
pouco mais de chance por ser portuguesa, e um anjo da guarda que me pôs um
caminho de estrelas para mim. Tô sendo poética, mas não estou exagerando.
O caminho foi tortuoso, mas eu cheguei aonde queria: um doutorado na
França. Mas, deixa eu explicar o meu exemplo...
Primeiro, não sei nem mesmo te afirmar se a bolsa que eu consegui seria
disponível para não-europeus. Para minha melhor amiga, Nívea, andamos
procurando muita coisa, mas era quase sempre bolsa apenas para europeus e
ela acabou indo com uma bolsa da CAPES para Liverpool.
Eu tive um professor durante a faculdade que ficou encantado com um
trabalho que eu desenvolvi na disciplina dele e ficou me perguntando se eu
não pensava em seguir a carreira acadêmica. Mario Benevides dizia que eu
teria certamente a chance de conseguir um doutorado sanduiche e passar uns
anos no exterior. Explico: na época eu fazia um estágio na IBM e ainda
acreditava que seguiria a carreira de analista de sistemas numa grande
multi-nacional... Num doutorado sanduiche, você começa primeiro ano
prestando matérias no Brasil depois passa uma temporada no exterior, num
laboratório, desenvolvendo parte da pesquisa, depois volta para o Brasil
para fechar a pesquisa e redigir a tese.
Pensando nisso, e me decepcionando com as chances na IBM e depois na
Origin, me inscrevi no mestrado em Inteligência Artificial. No início,
pensava em seguir a área de Lógica, a mesma do Mario que me abriu as
idéias para a pesquisa. Durante as aulas do mestrado me encantei com o
trabalho em Redes Neurais, desenvolvido por dois Luizes: Luis Alfredo e
Luiz Adauto. Adauto tinha retornado a pouco dos EUA, onde tinha feito o
doutorado na Universidade de Boston. Ele foi, além de um grande amigo, meu
orientador durante o mestrado. Mas antes de eu terminar, ele conseguiu uma
vaga para um pos-doc (pos-doutorado) num laborratório nos EUA. A única
coisa que ele não pode fazer foi participar da minha defesa de tese. De
resto, fui sendo ajudada também pelo outro Luis.
Durante o mestrado, fui apresentar meu trabalho num congresso
internacional em Campinas. Sendo um congresso pequeno, todo mundo que
apresentava os artigos também tinha direito de fazer um poster descrevendo
o seu trabalho. Geralmente quem faz o poster não se apresenta, e
vice-versa. Foi meu primeiro congresso e minha primeira apresentação em
inglês, e pra piorar, fui eu quem abriu o congresso (afinal, alguém tem
que ser o primeiro a apresentar). Desse congresso, além de contatos dois
com professores italianos (eles queriam que eu fosse trabalhar com eles na
Itália), trouxe meu poster comigo.
Para a Itália eu não poderia ir com a bolsa brasileira, da mesma forma que
não poderia vir para a França: para se proteger de gente que vem para o
doutorado e depois diz que não pode redigir a tese porque não aprendeu a
língua do país, eles estão exigindo uma prova de proficiência na língua
ANTES de te dar a bolsa... Ninguém aqui da Europa entende esse impecílio e
acaba a maioria pagando o pato por algumas pessoas que se aproveitaram da
bolsa para não estudar, mas isso é papo pra outro dia...
O meu poster eu pendurei no meu laboratório, sobre a minha mesa de
trabalho. Já nos últimos meses, um outro professor de IA, Felipe França,
que eu só conhecia de corredor (nunca trabalhei com ele) veio me convidar
a entrar em contato com um colega francês. Eles estavam organizando um
projeto franco-brasileiro e estavam procurando doutorandos exatamente na
minha área: reconhecimento de faces. Ele ficou sabendo do meu trabalho
pelo poster. Foi Felipe França quem me pôs em contato com a França. Fora o
trocadilho óbvio, eu sempre tive uma paixão inrustida pelo país. Aprendi
francês na escola, desde pequena. Juntei todo o meu dinheiro para passar
férias em Paris (enquanto meus amigos juntavam dinheiro pra passar férias
na Disney...).
Juntando a fome com a vontade de comer, entrei em contato vom Vincent
Vigneron, que me ajudou a redigir o projeto de pesquisa que seria
apresentado para minha bolsa. Infelizmente, o lado brasileiro da COFECUB
(a coalição franco-brasileira para pesquisa) deu cartão vermelho pro nosso
projeto.. Mas meu contato com Vincent perdurou. Coincidência das
coincidências, eu estava indo à Paris naquele ano. Pelos 50 anos da minha
mãe ela ganhou a viagem comigo para a França (sonho dela de muitos anos).
Peguei minha apresentação do congresso e vim apresentar em Evry, a minha
universidade aqui na França, ao sul de Paris. Venhamos e convenhamos, não
é todo mundo que é convidado para trabalhar noutro país e diz:peraí que eu
vou dar um pulinho aí e apresento meu trabalho pessoalmente.
Vincent continuou batalhando por mim e descolou uma vaga num laboratório
novo, fundado em 99, para trabalhar em colaboração com um colega de
doutorado dele, Morgan Mangeas. Foi assim que eu vim parar no LIVIC, em
Versailles em meados de 2000. O resto fica pra outra mensagem...
A história ficou longa, mas é pra mostrar que as bolsas em outros países
existem. Mas descobrí-las e conquistá-las dependem de muita força de
vontade mas também de muita sorte!
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